135504 visitas | Segunda-Feira, 06 de Setembro de 2010

Parceiros:

O herói e o covarde - Flávio Saraiva - Delegado Polícia Civil de Alagoas
Dia 12/11/2009, quinta-feira, horário de abertura de uma agência da Caixa no Centro de Maceió, o policial civil Anderson Lima constata a ocorrência de assalto, com os assaltantes de armas em punho saindo do banco. Naquele momento o policial dispunha de fração de segundo para decidir que atitude tomar e as opções passam na cabeça na velocidade do tempo disponibilizado. Poderia permanecer na zona de conforto e observar a ocorrência a distância e depois, como se nada tivesse presenciado se apresentaria surpreso e disposto a investigar. Poderia, ainda à distância e protegido, pedir reforço por telefone observar detalhes que pudessem levar à identificação futura dos criminosos e consequente prisão. O policial resolveu reagir e enfrentar o grupo criminoso.


Na apresentação das opções o policial certamente pensou na sua família e, naquele momento específico lembrou-se dos “treinamentos” com seu filho de 10 anos de idade, documentados na câmera da esposa-mãe. O policial era instrutor de operações especiais da academia de polícia civil, especialmente em entradas táticas, combates em ambientes confinados e tiro policial e, por ser perfeccionista, repetia exaustivamente seus movimentos que mais tarde seriam repassados aos seus comandados e alunos. O filho acompanhava os passos do pai herói.


No combate com os assaltantes, o policial percebeu a aproximação de um bandido vestindo uniforme da Polícia Militar de Alagoas com a arma na mão, imaginou que ali chegara um reforço para o enfrentamento aos criminosos que empreendiam fuga, mas tratava-se de um covarde que atirou em sua cabeça, causando-lhe a morte. O herói estava preparado para o combate, mas não para a traição travestida de policial, repetindo a saga de tantos outros heróis que a história se encarrega de eternizá-los.


Sei que muitos irão dizer que os cemitérios estão cheios de heróis sepultados e ainda poderão questionar a reação do policial assassinado que, se tivesse apenas se omitido, estaria vivo para continuar sua brilhante e exemplar carreira. Mas como iria o nosso herói ensaiar a omissão com seu pequeno filho e depois analisar as imagens documentadas pela esposa-mãe? Como ele iria se dirigir aos seus tantos alunos e comandados para argumentar que a omissão é a melhor atitude em situações de confronto? Como? Logo ele, líder de tantas equipes de seguranças de secretários de Estado, chefe e instrutor do grupo de elite da sua polícia, líder carismático, fiel, companheiro... Herói!


O covarde assaltante assassino está preso. No sistema penitenciário vai receber o reconhecimento de seus pares por ter matado um policial, tatuando o seu corpo com a imagem do palhaço coringa, condecoração do mérito bandido. Duas vezes por semana receberá visitas de mulheres para relações íntimas que, pela grandeza do gesto ousado e covarde, talvez necessitem entrar na fila para um pernoite de amor bandido.


(*) É delegado de Polícia Civil (flaviosaraivas@gmail.com).

Voltar
ADEPOL/AL - Associação dos Delegados de Polícia do Estado de Alagoas ®
Rodovia AL101-Norte, S/N, Jacarecica, Maceió-AL. CEP: 57039-700 Tel.: (82) 325-8585
© Copyright - Todos os Direitos Reservados.