FLÁVIO SARAIVA*
Em 2002 a Polícia Civil de Alagoas realizou o último concurso para escrivães e agentes de polícia. Na minha casa, uma filha iniciando o curso de direito consultava sobre sua participação no certame e fora então aconselhada a esperar por outras oportunidades – concurso para carreiras de nível superior ou órgãos federais e ainda advertida de que deveria construir sua carreira em instituição onde pudesse exercitar sua independência e não correr o risco de ficar rotulada como a filha do delegado.
Após alguns sucessos e conquistas profissionais, a filha é aprovada no concurso para escrivã da Polícia Federal e a família comemora a grande vitória. Por que tanta alegria? E por que a desautorização para o ingresso na Polícia Civil de Alagoas?
O escrivão da Polícia Federal inicia a carreira com um salário de R$ 7.500,00, enquanto seu colega da Polícia Civil não chega a R$ 2.000,00. A formação federal tem carga horária o dobro da estadual, tempo integral na academia, rígida disciplina, culto aos seus símbolos, distintivo e hino cantado regular e emocionadamente a plenos pulmões, valores carregados para o resto de suas vidas. Com 26 anos de atividade não conheço, se é que tem, o hino da minha polícia.
O policial federal percorre o País em operações cujos resultados são apresentados nos telejornais em horário nobre, conduzindo presos figurões da vida nacional, imagens que tornaram sua polícia das instituições mais acreditadas pela sociedade. A imagem mais forte da Polícia Civil é a de seu sindicato lutando por melhores salários e condições de trabalho, com o emprego de táticas que afetam a relação de confiança e respeito por parte da sociedade.
Pode parecer simplista, mas a transformação de uma polícia começa pela oferta de bons salários, que elevam a concorrência nos concursos e consequente o nível dos novos quadros, como já ocorre na classe dos delegados, renovada com jovens e talentosos profissionais vindos de toda parte do País. Bons salários propiciam dedicação exclusiva à atividade policial sem a necessidade de complemento no bico ou na corrupção.
A Polícia Civil do Distrito Federal, instituição mantida pela União, com estrutura e salários assemelhados à Polícia Federal é um exemplo disso, quadro de profissionais bem formados, dedicados e nível de corrupção baixíssimo.
Gostaria muito de expressar a alegria de um dia gritar a plenos pulmões, imitando Galvão Bueno... Ééééé da Polícia Civil de Alagoas, mas por enquanto... Éééééééé federal!
(*) É delegado de Polícia Civil (flaviosaraivas@gmail.com).
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