| FLÁVIO SARAIVA *
A passagem da minha adolescência para a vida adulta foi marcada por um crime de homicídio que obteve grande repercussão entre os moradores do bairro de Bebedouro. Um amigo de infância matou um velho homem a facadas para roubar dinheiro necessário à compra de drogas, naquele tempo álcool e maconha. Com ele bebi muito, mas nunca tive coragem de, sequer, experimentar maconha.
Há trinta anos, o crime era o assunto do momento no pobre bairro e no primeiro dia de visitas ao jovem criminoso, sua cela não cabia de tanta gente, eu inclusive. Relatando o evento para um policial da família, este alertara para o perigo da atitude dos visitantes, pois estariam transformando um criminoso em herói.
O amigo de infância saiu da cadeia em pouco tempo e teve vida curta, foi assassinado a tiros, transformando-se para mim no primeiro e curto registro do ciclo de vida de um viciado em drogas.
No final dos anos 80 e já na polícia, participando de fóruns sobre segurança pública e violência, tomei conhecimento de uma nova droga que aparecera em São Paulo, resultante da mistura de cocaína, bicarbonato de sódio ou amônia e água destilada, em forma de pedras que eram fumadas em cachimbos. As pedras foram logo batizadas de crack, em face do som produzido quando queimadas, e os cachimbos de maricas.
O crack mudou o perfil do usuário de drogas em face do seu alto poder de causar dependência, uma fissura que o impele a consumir mais e mais. Por ser uma droga considerada barata e acessível o crack avançou de forma assustadora, transformando o perfil da criminalidade com o crescimento dos índices de assaltos e homicídios. O efeito devastador do crack causava pavor até aos traficantes cariocas que temiam pela redução de demanda (os usuários morrem cedo) e controle de seus colaboradores no negócio criminoso. Lutaram, mas não conseguiram, o crack chegou e se alastrou como uma poderosa epidemia.
Em Maceió, o crack contribui de forma decisiva para transformá-la na capital campeã de homicídios no País e é fácil identificar o porquê. O jovem usuário de crack, maioria pobre, não tem como manter a crescente necessidade de uso da droga e passa a fazer pequenos furtos, que progridem para arrombamentos mais arrojados, que evoluem para assaltos e que, se for competente, progride para pequeno traficante e aí submeter-se a novos riscos. Se incompetente, mal pagador, morre logo. Competência no tráfico também não é bem vista pelos concorrentes que vão brigar pela manutenção da área do negócio, onde o poder de negociação é diretamente proporcional à capacidade de matar.
Para o usuário de crack a vida é como um jogo de videogame onde as fases passam de forma muito rápida – uso da droga, pequenos furtos, assaltos, homicídios, entradas e saídas de cadeias e o final é a morte.
(*) É delegado de Polícia Civil (flaviosaraivas@gmail.com)
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