135132 visitas | Sábado, 04 de Setembro de 2010

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Crime & cia. - Flávio Saraiva - Delegado de Polícia Alagoas
Conceber um negócio num mundo surpreendido por várias crises financeiras representa grande desafio, empreender, construir, contratar pessoal e colocar em funcionamento uma empresa, significa gesto heróico. Os empreendedores e especialistas no ramo costumam afirmar que uma empresa só começa a dar lucro após cinco anos de funcionamento.


Nesse período, muitos heróicos empreendedores gastam suas reservas e buscam mais nos bancos a juros extorsivos e grande parte deles não consegue sobreviver no negócio. Logo na instalação do empreendimento sente o peso das exigências dos órgãos fiscalizadores – projetos para bombeiros, meio ambiente, saúde, convívio urbano, trânsito, sindicatos, conselhos profissionais e, se for agronegócio com emprego de tecnologia moderna, aí vem liga campesina, sem terra, sem teto e muita gente sem vergonha.


Contrariando esse modelo de empreendimento que tanto limita os heroicos empresários, surge o negócio do crime, concebido à margem da lei, pode tudo – instalação em áreas de proteção ambiental, nas cabeceiras de pontes, margens das lagoas, propriedades alheias, sem projeto de incêndio, nenhuma relação formal de trabalho, sem imposto e certeza de lucro já na instalação. O único risco, se assim pode ser chamado, é a prisão.


Todo dia a caminho do trabalho, atravesso a conhecida Favela do Jacaré, construída às margens da rodovia AL-101-SUL, limitada pela ponte que liga Barra Nova a Massagueira em Marechal Deodoro, contrariando todo o ordenamento possível e imaginável, mas os poderes públicos fecham os olhos.


Lá a polícia já constatou um novo empreendimento do crime – o tráfico de drogas, que emprega muitos jovens com significativo avanço na inclusão marginal.


As facilidades para a instalação do narconegócio, certamente não seriam ofertadas ao legitimo proprietário daquela faixa de terra, mesmo com a geração de empregos legais e


impostos.


Com essa concorrência desleal em seu favor, o narconegócio cresce em proporções geométricas, despontando como o grande empregador nas áreas mais desassistidas do Estado. É fácil entender a expansão.


Com a explosão de consumo do crack, substrato de cocaína também conhecido como nóia, numa referência à paranóia de seus usuários, trazido para o Estado em quantidades que podem ser facilmente ocultadas (diferente do que ocorre com a maconha), a droga é um fenômeno de capilaridade na distribuição, alcançando seus consumidores onde eles estiverem. O fenômeno se dá pela mão-de-obra barata, sem impostos e um rígido sistema de auditoria no processo, onde os maus colaboradores são demitidos com execuções sumárias.


As colunas policiais, não com muita frequência, noticiam os traslados dos empreendedores do narconegócio para o sistema penitenciário.


Ali, com assessoria multidisciplinar, ambientação confinada e focada, audita o incidente no negócio, transformando-o em oportunidades.


(*) É delegado de Polícia Civil (flaviosaraivas @gmail.com).

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