Everaldo Damião, advogado e jornalista.
Todas as vezes que acontecem “tragédias” de grandes proporções, como as “enchentes” nas cidades ribeirinhas em Alagoas e em Pernambuco, ouvem-se falar na incapacidade e na impotência dos gestores públicos em não socorrer as necessidades dos seus munícipes. Os Governos Estadual e Federal se apresentam como “salvadores” da Pátria, relocando verbas para auxiliar seus “patrícios” aliados. Por outro lado, sem fazer nenhuma análise profunda sobre o fato acontecido, a imprensa se limita apenas a informar sobre a “calamidade”, divulgando um emaranhado de discursos, imagens e textos institucionais, sem a preocupação de “interpretar” o contexto que envolve o homem e o fato. A imprensa, geralmente informativa, não levanta qualquer “dúvida” sobre as causas e os efeitos das “tragédias”. Poucos jornalistas, e são poucos mesmos, cogitam sobre a “inércia” dos poderes públicos, no tocante à fiscalização e a previsibilidade dos acidentes e das catástrofes. Alguns comentam sobre a falta de punição dos culpados, mas ninguém ousa a apontar esses irresponsáveis. Membros do Ministério Público, em sua grande maioria, acusa o homem simples do povo quando pratica alguma delinqüência, durante esses trágicos episódios, mas não “investiga” nem “condena” o “alcaide” (chefe político) quando exercita a improbidade administrativa. Aliás, a vida humana vale muito pouco no Brasil.
Como destacou o jornal francês “Le Monde”, em 2005, ao comentar sobre o “Tsunami” que atingiu a Indonésia e a Tailândia, “A morte prefere os miseráveis”. Tal e qual “Os Miseráveis” de Victor Hugo (clássico da literatura francesa, escrito no século 19), a existência humana continua sendo massacrada por injustiças sociais, ausência de valores morais, práticas antissociais (vide nova ortografia), e, até mesmo, por questões sentimentais, onde o individualismo e o egoismo continuam se destacando no meio da nossa sociedade contemporânea. Tudo o que já aconteceu no passado, em regra, volta acontecer no presente, quando o homem não procura rever os fatos dramáticos já acontecidos. A falta de observação sobre os acontecimentos no passado pode gerar erros incorrigíveis no futuro. Afinal, as construções imprudentes nas proximidades dos leitos dos rios; a negligência na fiscalização do Poder Público Municipal e as chuvas torrenciais nas bacias hidrográficas são as causas das catástrofes nos municípios ribeirinhos em Alagoas e em Pernambuco (quiçá, em todo o território nacional). Isso sem esquecer as lições que aprendemos no dia-a-dia, transmitidas pelas leis naturais: “Tudo o que é sólido se desfaz na água”.
Pior ainda é quando se ouve e vê, por meio da Imprensa, as declarações de governantes e ex-governantes, prefeitos e ex-prefeitos, exibindo “planos” e “projetos”, numa “preocupação” de possuir as soluções para os males naturais causados às populações pobres. Nessas oportunidades, medidas profiláticas como o mapeamento geotécnico e a aferição de riscos de novas “catastrofes” são expostas como “ações públicas” mediatas. Porém, a discrença do povo continua existindo, enquanto as “tragédias” continuam perseguindo à população. Nada fica como antes. As cidades se expandem sem planejamento urbanístico: as encostas e os leitos dos rios são invadidos pela construção de casas irregulares, visando reduzir o “déficit” habitacional. O Ministério das Cidades, que deveria fiscalizar as irregularidades, interferir no planejamento e disponibilizar recursos financeiros, objetivando evitar o crescimento desorganizado das cidades e promovendo, com os Municípios, a transformação das cidades, humanizando seus espaços públicos, evitando a construção de moradias em lugares de risco, nada faz de concreto. Tudo fica por conta do Administrador Público Municipal, que além da falta de verbas monetárias, destinadas a gerenciar tais problemas, não tem consciência da gravidade dos problemas, nem dispõe de assessoramento técnico específico, capaz de garantir a paz e a tranquilidade no município... Pensemos nisso! Por hoje é só.
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